quinta-feira, 16 de agosto de 2012

æqualis - conclusão da trilogia




* Escrito, originalmente, em 1º de outubro de 2010. Pequenas modificações pontuais foram feitas em 19 de dezembro do mesmo ano e 30 de julho de 2011. Desde então, encontrava-se engavetado.


Como vinha acontecendo nas últimas três semanas, passei pela porta da cafeteria, cumprimentei a garçonete com um breve aceno de cabeça, acreditando que apenas isso já bastasse para que essa compreendesse qual seria meu pedido.

Arrastei as sobras do meu ser até a mesa de todos os dias e tentei ao máximo me acomodar na cadeira mais desconfortável e desalinhada que devo ter topado em toda a minha vida. Poderia simplesmente mudar de lugar, ao invés de ficar me revirando no acento, rangendo mais que os joelhos da minha pobre avó. Ou estar aqui reclamando sobre algo que, aparentemente, não adiciona nada ao relato. Mas o lugar, como vocês devem estar imaginando, era estratégico.

Assim que tomei conhecimento dessa "intromissão" na minha rotina matutina, lá pelo terceiro dia, decidi transformar essa cadeira em meu ponto de observação. E, desse modo, como nos demais 18 dias, sentei-me aqui na esperança, ainda que ínfima, de NÃO vê-la.

Aprendi a sobreviver a todas essas manhãs me adaptando. Após a primeira olhadela lá fora, em direção ao cruzamento, saquei da mochila um livro. Apenas um artifício de distração, é claro! A quem quero enganar?! Finjo lê-lo para que ela não perceba o quão incomodado me sinto com a sua presença.

Como de costume, a garçonete se aproximou com a mesma cara de interesse que, quando pequeno, minha mãe fazia quando recebia um "não quero legumes hoje" como resposta no jantar. "Um capuccino médio, por favor", limitei-me a dizer por trás do livro. Tinha medo de mudar meu pedido e acabar recebendo a xícara "contre ma volonté" nas minhas partes íntimas. Apesar de pequenas, ainda nutro esperanças de ter filhos um dia.

Assim que a garçonete deixou a xícara a minha frente, fechei o livro e esperei. Não rezei porque não fui criado de tal maneira, a jogar a responsabilidade de meus atos e/ou a sorte de fatos futuros na crença de um ser superior. Apenas recostei-me na cadeira e peguei a fumegante bebida entre as mãos. Meu olhar ainda estava perdido no redemoinho de espuma marrom quando senti um arrepio. Ela chegou! Só pode existir uma certeza maior, e está, mesmo com a grande curiosidade mútua, ainda não tive o privilégio de avaliar.

Num movimento que, agora, me pareceu ter levado quase uma hora, recoloquei a xícara em sua posição anterior. Enquanto isso, na esquina em frente, ela aguardava, pacientemente, o semáforo favorável. O sol, radiante em seu esplendor matinal, bateu em retirada, deixando no céu apenas um manto cinza disforme. Sei que não é o mais louvável dos sentimentos, mas lhe invejei pela covardia.

Seu andar era calmo e rítmico, como se fosse minuciosamente ensaiado. Em poucos segundos, ela já estava puxando uma cadeira na mesa em frente, ficando exatamente no meu ponto de fuga. De repente, o jornal que estava acomodado entre suas costelas e seu braço direitos se abriu. Para minha infelicidade, não era grande o bastante para encobri-la.

A garçonete, como num passe de mágica, surgiu ao seu lado. Não ouvi seu pedido. Nem mesmo cheguei a perceber algum movimento de seus músculos faciais que denunciassem a pronuncia de algo. Acabei por me pegar articulando as palavras “um café puro, sem açúcar”.

Como sua presença me incomodava! E eu sei que ela tinha plena consciência disso. Talvez seja esse seu traço o maior responsável pelo meu ódio. Tentei não transparecer. Peguei novamente minha xícara entre as mãos. E como tremiam, essas delatoras! Amaldiçoadas sejam, desde a pele até o interior de cada falange!

Tentei manter o olhar distraído, ocupado em algo distinto. Tarefa difícil, já que éramos, ela e eu, os únicos clientes do café naquela manhã cinzenta. Respirei fundo. Duas, três vezes. Nem Vênus devia possuir um ar tão pesado assim. Atrevi-me a levar a xícara de café à boca novamente. A tremedeira me fez desistir antes do primeiro terço do trajeto.

Voltei ao livro. Abri espaço entre xícara e farelos recentes, e pousei-o na mesa. Enquanto isso, a garçonete voltou com o café puro. Vocês precisavam ver seus modos! Parecia ter passado por uma metamorfose: toda arrogância e falta de apreço deram lugar a um semblante solícito e cheio de pompa. Ah, sua pedante! Aguarde pela surpresa em sua gorjeta!

Inclinei-me sobre o opúsculo, buscando abster ao menos minha visão. Hoje, cheguei a conclusão que poderia ter enviado um ofício ao pessoal do Guinness Book, pedindo minha inclusão no próximo volume sob o título “Menor tempo concentrado numa leitura qualquer”. Minhas costas começaram a ranger antes do primeiro minuto. Logo pensei em concentrar minhas atenções no teto, mas desisti quando considerei o torcicolo que poderia surgir.

Ao voltar para minha posição inicial, pode ter sido apenas minha imaginação, mas juro ter vislumbrado um pequeno sorriso em seus lábios. Vadia! Se divertindo as minhas custas, não é?! Sorte sua não ter sobrado nenhuma migalha de coragem para eu ir até aí e dar-lhe algumas dúzias de sopapos, pensei comigo. Provavelmente, mandando para longe esses óculos escuros de Black Kamen Rider.

A raiva repentina me fez crispar os dedos na mesa. Relaxe e respire. Apesar respire e relaxe. Isso, assim. Acalme-se. Desanuvie sua mente. Pela segunda vez, aquele sorriso zombeteiro! Espero que a sessão de tirinhas do jornal esteja mais engraçada do que meu desespero aqui.

O suor começou a jorrar de minha nuca, percorrendo lentamente, com a ajuda da gravidade, minha espinha como numa corrida com obstáculos. Era hora de jogar minha última ficha: o café. A recente dose de adrenalina parece ter cimentado minhas mãos. Duras como rocha! E sorver o líquido me revigorou. O último gole veio acompanhado de um novo sorrisinho de minha espectadora dissimulada.

Chega! Levantei-me num pulo, decidido a pagar minha conta e dar o fora o mais rápido daquela masmorra. Eis que, para minha surpresa, ela se levantou no mesmo instante. Calmamente, dobrou o jornal a posição original, colocou sua bolsa no ombro, fitou seu café e depois olhou, por detrás dos óculos escuros, bem dentro de meus olhos. Nem preciso dizer o que ela fez antes de se virar e sair.

Como nas últimas três semanas, me aproximei de sua xícara, levantei-a e bebi todo o frio conteúdo de uma só vez. Ah, como era doce o sabor do fracasso! Ao repousar a xícara vazia, reparei num pequeno pedaço de papel dobrado preso logo abaixo. Não sei como ela pôde ter escrito algo durante aqueles longos minutos em que esteve ali, lendo o jornal. Depois de tantos dias nesse mesmo rito, finalmente uma novidade! Desdobrei-o cuidadosamente, como se estive embebido em nitroglicerina. Meus pensamentos foram interrompidos pela voz longínqua e esganiçada da garçonete:

“deseja algo mais?”

“perdão?!”

“perguntei se deseja algo mais”

 Tirei algumas notas do bolso, o suficiente para pagar pelos dois cafés. Coloquei sobre a mesa, exatamente acima do papel que tinha acabado de ler e disse com um sorriso amarelo e um leve tom afetado: “não, obrigado”.

Ao me aproximar da saída, fui sacando meu isqueiro e um cigarro. Estanquei a um passo da calçada, já com o cigarro entre os lábios, ao ouvir a garçonete chamando:

“Moço, moço!”

“Pode ficar com o troco”

“Na verdade, não há troco. Apenas queria lhe perguntar sobre este papel? É seu?”

Vi o famigerado bilhete entre seus dedos gordurosos, apontado contra meu peito. Dei um meio sorriso ao me lembrar da palavra ali escrita, sua caligrafia cuidadosa e prolixa. Voltei meu olhar para a mocinha que, ao perceber meu aceno negativo, afastou-se vagarosamente.

Já na calçada, apreciei o céu que continuava cinzento. Acendi meu cigarro. E segui meu caminho, pensando na infantilidade humana de atirar contra um professor seu próprio ensinamento.


H (embuste!)

sábado, 11 de agosto de 2012

Trilogia "Aconteceu num café" - 2a história



* Quem tiver curiosidade, a primeira história está aqui.


- E então..?

- Então o quê?!

- Qual a sua opinião sobre tudo? Foi você quem me chamou aqui. Disse que tinha algo importante para falar – ele fez uma pausa para saborear o café que tinha acabado de chegar – Julguei que seria sobre isso.

- Pensamento muito sensato o seu. Antes, me responda uma coisa: quantas recusas você consegue suportar? – perguntou ela com um sorriso nervoso entre os lábios.

- Cof, cof.. é, acho que esse pode ser um assunto complexo demais para um mero café! - ele fez menção de chamar novamente o garçom.

- Por favor! Não leve para o lado pessoal. – ela disse enquanto pegava mais um sachê de açúcar – Sejamos adultos, tendo uma conversa igualmente adulta, ok? Agora, responda a pergunta!

- Apenas um número? É isso que você quer?!

- Sim, Ed! – ela não pode demonstrar menos impaciência – Apenas um número. Mas, se for muito difícil para voc...

- Cinco. – interrompeu ele, rispidamente. - Eu acho. Espera.. isso significa que você não gostou?! Não pode ser! Nas outras duas ocasiões você era só elogios para comigo. – E completou, quase aos berros  –  O que mudou?!


Era nítido que ele estava perdendo o controle da situação. Por quê?! Sempre a mesma ladainha. A terceira só naquele ano! Vinte nove anos uma ova! Queria seus nove anos de volta, quando tudo era bem mais simples. E divertido. Sim, muito divertido.


- Ed, será que você consegue refletir em modos a idade que tem? Por favor! – ela olhou para os lados e fez um breve movimento para se levantar, porém deteve-se ao sentir as mãos dele sobre as suas. – Novamente, eu lhe peço: não leve para o lado pessoal, ok? É mais comum do que você imagina. Você é bom.   –  e completou, diante de um leve sinal negativo dele  –  Sério! Engraçado, profundo, afetuoso, dedicado. Mas não é bom o bastante. – fez uma breve pausa e completou já de pé diante dele – Não para nós.

- Tudo bem. Me desculpe pelo descontrole momentâneo. – disse ele enquanto observava a borra de sua xícara – Você pode ao menos me dizer quais meus pontos fracos? No que posso melhorar, sabe?! Para isso não se repetir mais vezes.

- Querido – disse ela da forma mais amorosa possível, voltando a sentar-se. – Vou responder a sua pergunta com uma simples analogia, utilizando exatamente este espaço onde estamos. Você está vendo aquele casal de idosos ali, próximo ao balcão?

- Sim.

- Ótimo. Alguns minutos atrás, assim como fez conosco, o garçom passou por eles para anotar seus pedidos. Como você pode ver, o senhor está tomando café expresso e a senhora, um cappuccino, certo?

- Concordo.

- Agora eu lhe pergunto: qual a diferença entre os dois? O que um cappuccino tem que um café expresso não tem?

- Ah.. sei lá. – ele parou um instante, não apenas para pensar na resposta, mas para imaginar onde essa observação se encaixaria no pedido que havia feito. – O cappuccino, além de café expresso, também leva leite e espuma.. é isso?!

- Exato! – exclamou ela apontando o dedo para a testa do rapaz como uma professora querendo chamar a atenção da sala ao aluno sabichão. – Agora, uma pergunta mais complexa: por que eles fizeram pedidos tão sutilmente diferentes?

- Não sei.. talvez porque eles sejam pessoas diferentes?!

- Novamente correto, querido.

- Está bem. Mas o que isso tem a ver com a pergunta que lhe fiz antes?

- Cada pessoa tem um gosto, Ed. Um dia, você encontrará alguém que leia o seu trabalho e visualize o café expresso que sempre buscou. Simples assim. – disse ela, abrindo um sorriso sincero – Agora preciso ir. Boa sorte com o livro, querido.


H (ainda há esperança!)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A fonte dos desejos

Imagem meramente ilustrativa



Quando eu era mais novo (mais de idade do que de estatura), minha mãe dividia seu tempo entre os afazeres da casa, os cuidados com os filhos e marido e seu principal hobby: a costura.

Como, para facilitar seu trabalho, minha irmã e eu estudávamos em horários diferentes, ela sempre me arrastava em suas viagens homéricas, em busca de tecidos, botões e demais apetrechos necessários.

Quase sempre aceitei de bom grado tal tarefa. Claro que tinha em mente o lado especulativo que essa empreitada possibilitava. Era, salvo raríssimas exceções como aniversários, eleições e visitas a parentes distantes, de aproveitar o bom humor e a grande disposição da minha mãe para “exigir” algo em troca da minha prestativa função como filho. Nada muito elaborado e/ou expansivo. Geralmente, uma guloseima ou salgado.

Porém, uma das minhas exigências favoritas não passava nem perto da ala gastronômica.

Uma das lojas que minha mãe visitava com maior freqüência ficava no bairro da Lapa. Defronte a supracitada estava um Grupamento do Corpo de Bombeiros. E, na entrada deste, ficava uma pequena fonte com peixes japoneses dos mais coloridos. No fundo, um tapete de pequeninos objetos metálicos, em forma de brilhantes moedas.

Diferentemente de outros casos, nesta loja, fazia questão de esperar minha mãe na porta. Ela, provavelmente com medo de que eu aturdisse como um louco até o outro lado da rua, lançava um olhar risonho à fonte, voltava-se para mim, passava a mão em minha cabeça e dizia: “volto já”.

E lá ficava eu, estancado. O olhar fixo e um desejo crescente, maior do que qualquer número que eu conhecia àquela época.

Difícil explicar quais eram meus sentimentos ao ficar ali parado. Tudo para mim era digno de admiração. Até as pedras que adornavam a fonte eram especiais. Lembro que numa das primeiras vezes que fomos até ela, perguntei a minha mãe porque as pessoas jogam moedas aos peixes ao invés de comida. Minha genitora, que nunca foi dada a vislumbres ficcionais, disse-me algo que, mesmo sem saber, transformou aquele lugar no ponto conflitante entre minha realidade e minha imaginação: aquela era uma fonte dos desejos!

Infelizmente, com o passar do tempo e o assombro das responsabilidades acumuladas, tendemos a substituir esse aspecto quixotesco da infância.

Ontem à noite, após quase 20 anos, passei novamente pela tal fonte. Tinha o caminhar apressado e fôlego quase nulo. A última condução para meu merecido descanso sairia em poucos minutos.

Não sei bem se foi a tranqüilidade do horário ou minha felicidade pelo dia exaustivo que tive, mas retrocedi alguns passos. Tal como Narciso, admirei meu reflexo, sombrio e desbotado de luz artificial, antes mesmo de passar os olhos pelo entorno.

Tão saudoso quanto Casimiro de Abreu, lembrei-me daquelas manhãs gélidas e fugazes. Abri um pequeno sorriso, agradeci e me afastei, sentindo-me renovado.


H (Novo.. denovo)